Nota sobre patronato e filiações divinas

Moeda do século III a.E.C. representando Alexandre, o Grande, com os chifres de Zeus-Amon.

Colaboração de Mikka Capella
Revisão de Jota Oliveira

Já faz algum tempo que eu não escrevo sobre religião e paganismo heleno, mas recentemente tenho visto pulularem publicações sobre o tema das filiações divinas e me senti motivado a dar alguma contribuição, já que este é um assunto que me toca muito diretamente. O tema das filiações divinas é, aliás, uma recorrente na internet. Volta e meia reaparece, quase sempre em meio a declarações problemáticas, tanto por parte dos que defendem a ideia quanto por parte daqueles que, muito veementemente, a condenam. Como diz a máxima délfica: “nada em demasia”.

Antes de começarmos, porém, eu gostaria de fazer algumas considerações importantes. A primeira é que este é um texto que citará algumas referências históricas, mas não se trata de uma análise historiográfica. Estamos aqui falando de religião, portanto trata-se de uma abordagem religiosa, teológica. Uma abordagem teológica, vale acrescentar, que parte de um local e um tempo específicos. Toda e qualquer abordagem, sobre todo e qualquer assunto, aliás, parte de um local e um tempo específicos.

A segunda coisa que eu gostaria de dizer é que não pretendo neste ensaio esgotar o assunto. A natureza da temática que estamos explorando aqui é demasiado rica para se exaurir em alguns poucos parágrafos; e uma miríade de parênteses, aspas e hiperlinks certamente brotarão espontaneamente de minhas exposições.

Uma terceira coisa, também muito importante, é que, embora a temática central deste pequeno ensaio atravesse o escopo de diversas religiões tradicionais politeístas, eu vou me ater ao caso heleno, que é o que melhor conheço.  

Dito isto, vamos logo ao que interessa. Sobre filiações divinas, ou, como se convencionou chamar nos meios virtuais, patronatos, há dois grupos muito bem definidos: os que se autodeclaram filhos e filhas de divindades dos mais diversos panteões indiscriminadamente e aqueles para quem tais filiações são uma mera invenção moderna. Ambos estão errados. Por uma questão estrutural, vamos começar pela desconstrução da segunda ideia.

Eu sempre acho muita graça das pessoas que realmente se acreditam capazes de inventar algo novo nesta altura do campeonato. São milênios de história humana, com todos os conflitos, dramas e dilemas que isso significa. Será que há, realmente, alguma ideia nova ou nós apenas encontramos meios de exploração das ideias antigas mais adequados às nossas realidades?

Representação do deus Héracles como Vajrapani, o protetor de Buda.

Divagações à parte, um dos argumentos mais frequentemente usados contra a ideia das filiações divinas é que se trata de uma apropriação tipicamente brasileira de conceitos das religiões afro-brasileiras. Não que houvesse algum problema se realmente fosse isso. Eu sinto em algumas pessoas uma vontade muito forte de buscar uma religião pura que jamais existiu. A cultura greco-romana, em sentido amplo, é considerada a base da cultura ocidental. Mas a verdade é que, com as conquistas de Alexandre, a religião helena ganhou o mundo, se espalhando por diversos lugares, do Oriente ao Ocidente, e ganhou contornos muito particulares em cada um desses lugares. O deus Héracles, por exemplo, é cultuado como um protetor de Buda no Japão. Então eu realmente não veria problema algum se houvesse no Brasil (e em algum sentido eu acredito que haja mesmo) um sincretismo caboclo; não apenas no que diz respeito às tradições afro, mas também às muitas tradições indígenas que compõem a imensa colcha de retalhos que é a religiosidade brasileira. O problema é que, ao menos no que diz respeito ao caso das filiações divinas, isso não é verdade.

Como é do conhecimento de muitos, eu estive na Grécia em meados de 2015, numa visita às origens, como eu gosto de chamar, uma espécie de jornada espiritual íntima. Nesta viagem, conheci não apenas lugares, mas também pessoas que praticam a religião dos seus ancestrais, os helenos étnicos, e muitos deles se tornaram meus amigos pessoais. Essas pessoas também têm seus Deuses Patronos, suas filiações divinas. Isso não é uma invenção do Brasil.

E antes que alguém encontre alguma outra explicação esdrúxula, vamos recorrer a exemplos antigos, já velhos conhecidos da historiografia, como Pitágoras de Samos, que, como nos conta Jâmblico em seu Vida de Pitágoras, era filho de Apolo. Também ao já mencionado Alexandre, o Grande, quando este visitou o Oráculo de Siuá, no Egito, foi revelada a sua filiação divina, posteriormente ratificada pelo Oráculo de Delfos: Zeus-Amon; assim nos conta Plutarco, ele mesmo sacerdote do Templo de Delfos, em seu Vidas Paralelas.

Nesta estátua do século I a.E.C., Cleópatra VII fez-se representar com os atributos de Ísis-Afrodite.

Ora, não estamos falando aqui da linhagem mítica dos heróis. Pitágoras, segundo se supõe, era filho de um humilde ferreiro de Samos. Já Alexandre, como todos sabemos, era filho de Felipe da Macedônia. Não estamos falando da paternidade biológica desses homens quando citamos seus Deuses Patronos, mas de suas filiações divinas, espirituais. E poderíamos ficar aqui falando dos vários outros exemplos famosos, gregos ou indiretamente pertencentes ao mundo grego, como Júlio César, que era filho de Júpiter; Otávio Augusto, o primeiro imperador de Roma, que era filho de Apolo; Cleópatra VII, filha de Ísis-Afrodite; Marco Antônio, filho de Dioniso; e o próprio Sócrates, que, à semelhança de Pitágoras, foi designado pelo Oráculo de Delfos um filho de Apolo.

Não, meus amigos, a filiação divina, ou o patronato, não é uma invenção moderna. O que ocorre é que talvez ela não fosse o aspecto mais evidente da religião helena. E, quando falamos de religião helena, é importante ter isto em mente: não estamos falando de uma doutrina religiosa coesa e regulamentada como nos parece o catolicismo romano.

A Hélade, ou, como é mais conhecida, a Grécia jamais foi um bloco cultural homogêneo. Em termos políticos, aliás, não poderia ser mais heterogênea. Tratavam-se de várias cidades-estado que possuíam cultura aparentada, falavam a mesma língua, acreditavam-se descendentes dos mesmos ancestrais míticos e cultuavam os mesmos Deuses, mas as semelhanças acabam aí. Essas cidades-estado tinham aspectos culturais distintos, formas de governo diferentes, sistemas de contagem do tempo diferentes, leis diferentes e prestavam cultos diferentes, ainda que aos mesmos Deuses.

Estamos falando de uma cultura muito complexa quando falamos de Hélade. Também estamos falando de uma religião (talvez o mais correto fosse usar o termo no plural, ainda que as culturas antigas jamais se referissem às suas práticas dessa maneira) bastante complexa quando falamos de religião helena.

De maneira bastante superficial, nós podemos falar em três formas de manifestação religiosa muito distintas.

A primeira é a religiosidade civil (um termo que me dá certo asco, devo confessar), a mais bem documentada e a que dá conta de grandes festivais que, em geral, envolviam toda a pólis, com a participação obrigatória de suas figuras de autoridade. Num contexto sócio-cultural como o da Hélade no período clássico, não há o que se falar em secularismo. Assim, não havia separação formal entre Estado e religião. Pelo contrário, a religião atravessava todos os assuntos da vida mundana. 

A segunda é a religiosidade popular, consideravelmente menos documentada e mais difícil de estudar. A religiosidade popular dá conta das práticas religiosas do povo, que se relacionava com cultos a divindades distintas, algumas delas estrangeiras (como exemplo, cito os Jardins de Adônis, em Atenas), cultuavam-se deuses e espíritos (daemones) domésticos e muitas vezes recorria-se a práticas que a literatura sobre a religiosidade civil não enxergava com bons olhos, como o katádesmos (feitiçaria).

A terceira diz respeito às chamadas religiões de mistério. Elas são chamadas assim porque realmente são um mistério. Aos iniciados era (e ainda é, pois ainda existem religiões de mistério helenas) vetado falar sobre suas liturgias internas com não-iniciados, de maneira que são a manifestação religiosa sobre a qual há menos documentação e sobre a qual menos se sabe. Pelo mesmo motivo, são também as manifestações religiosas helenas que despertam mais interesse, tanto em curiosos quanto em pesquisadores.

Deméter (à esquerda) e Perséfone (à direita) iniciam Triptolemo, ancestral dos Mistérios de Elêusis.

A mais famosa religião de mistérios helena era praticada no santuário dedicado a deusa Deméter, em Elêusis, mas havia muitas outras. Os chamados Mistérios de Samotrácia, o pitagorismo, o orfismo, o neoplatonismo, o dionisismo, os Mistérios de Cibele (dos quais se acreditava que os mistérios de Dioniso eram herdeiros), os mistérios de Afrodite no Chipre, e muitos outros, a maioria comentada por Pausânias em seu Descrição da Grécia.

Voltando ao nosso tópico, quando falamos de patronato ou filiações divinas, estamos falando de religião de mistérios. E isso nos leva à desconstrução daquela primeira ideia, lá em cima – de pessoas se dizendo filhas de divindades X e Y aleatoriamente, seja lá quais forem as razões pelas quais elas fazem isso. Simplesmente porque não se trata de uma informação trivial, vulgar, objeto de curiosidade como os signos do zodíaco. Tampouco é um conhecimento fácil de ser alcançado.

Algumas linhas acima, citamos algumas personalidades históricas cujo conhecimento de suas filiações divinas chegou até nós. Elas viveram em diferentes épocas, desempenhando diferentes papéis em suas sociedades. Todas elas têm apenas duas coisas em comum – eram personalidades relevantes para o seu próprio tempo e, o que mais nos interessa, tiveram a atribuição dessa filiação espiritual revelada por um oráculo. Apenas oráculos – e é importante dizer que aqui não estamos nos referindo ao tarô – têm autoridade para revelar a filiação divina de alguém, porque o oráculo é a voz de Apolo (ainda que nem todos os oráculos lhe sejam consagrados), que, como é dito no Hino Homérico 3. 132 , anuncia aos homens o desígnio inflexível de Zeus.  

Não faz sentido pensar em filiação divina fora do âmbito dos Mistérios, porque quando falamos em filiação divina estamos nos referindo a um princípio típico das religiões de mistérios. Em outras palavras, não somos mais apenas seres tentando nos relacionar com potências que regem o mundo; somos descendentes dessas potências, que, por sua vez, são princípios geradores dos quais a própria existência emana. Pela via da iniciação, nos conectamos ao princípio gerador e eterno do qual somos efêmera emanação e, assim, nos tornamos imortais.

A este respeito, Mircea Eliade nos diz o seguinte em História das Crenças e das Ideias Religiosas II (págs. 158-159):

[…] Na verdade, escreve Heródoto, os getas “creem que são imortais” (IV, 93), “pois pensam que a morte não os atinge e que aquele que perece vai juntar-se a Zálmoxis” (IV, 94). Entretanto, o verbo athanatízein (cf. V. 4) não significa “crer-se imortal”, mas “tornar-se imortal”. Essa “imortalização” era obtida por intermédio de uma iniciação, o que aproxima o culto fundado por Zálmoxis dos mistérios gregos e helenísticos (cf. §205). Nada sabemos sobre as cerimônias propriamente ditas, mas os esclarecimentos transmitidos por Heródoto indicam um argumento mítico-ritual de “morte” (ocultação) e “retorno à Terra” (epifania).      

Isso nos leva ao ponto que eu acredito ser o mais importante acerca das religiões de mistério – pela via iniciática, o iniciado passa a gozar da graça dos Deuses como a linhagem dos heróis. É por este motivo que, embora em Hesíodo a Terra dos Bem-Aventurados esteja reservada à linhagem dos heróis, os iniciados de Elêusis, como sabemos, gozavam de um lugar nos Campos Elísios. Pelo mesmo motivo, os iniciados órficos, ao se declarem descendentes do Céu e da Terra (Gaia e Urano), podiam recusar a água do Lethe, o rio esquecimento, e reivindicar a água de Mnemósine, a memória.  

Não estamos nos referindo, aqui, a um lugar espiritual de privilégio, como nos conceitos de céu e inferno do cristianismo. O privilégio expresso nessa ideia é o da própria existência. Esquecer-se é morrer. Lembrar-se é viver para sempre. E isto é possível pelo mistério iniciático; por aquilo que os alquimistas medievais chamavam de solve et coagula, que nada mais é do que a dissolução do ego na essência eterna dos Deuses.

É provavelmente por este motivo que muitas das personalidades históricas cuja filiação divina citamos aqui tornaram-se objeto de culto após a morte. Elas foram identificadas com seus próprios Deuses. Prova disso é que nenhum santuário dedicado a um desses mortos, mesmo aos míticos heróis, jamais foi independente do deus a quem era consagrado o morto. Não temos ciência dos túmulos de Pitágoras e de Alexandre, mas outro morto divinizado, Anfiarau, era cultuado em um templo nos arredores de Atenas ao lado de Apolo e seu filho Asclépio. O santuário dedicado a Anfiarau era, ao mesmo tempo, um oráculo e um hospital.

Para concluir a nossa linha de raciocínio (e assim impedir que este breve ensaio se transforme num livro), podemos afirmar que, não, as filiações divinas não são uma invenção moderna. Isso, no entanto, não endossa nem legitima o devaneio egocêntrico de quem acha que atribuir a si mesmo, segundo a própria vontade, uma filiação divina qualquer vai torná-lo alguém poderoso ou especial.

Pessoas especiais não o são porque assim se pensam, mas porque são assim pensadas pelos outros. O que torna alguém especial são suas obras, a marca que deixa no mundo e o quão profundamente consegue tocar os corações daqueles que o cercam. Talvez a principal característica de pessoas especiais seja o fato delas não estarem buscando ser especiais.

Quanto aos iniciados, aqueles que conhecem a sua filiação divina, eles talvez não sejam especiais e com certeza não se importam com isso. A busca do iniciado é pela grandiosidade de sua própria divindade. Uma grandiosidade que só pode ser alcançada quando, num paradoxo conciliado apenas em Dioniso e Apolo, ele abre mão de si mesmo para se encontrar.       

Que os Deuses abençoem os que chegaram até aqui.


Sobre o autor

Mikka Capella é sacerdote e iniciado nos mistérios de Poseidon há mais de 14 anos por uma tradição helênica familiar. Cursou graduação em História pela UFRRJ e UFRJ, focando seus estudos em Antiguidade Clássica e Helenismo. É casado e vive em Guaratiba/RJ com seu marido e Luna, a gata preta.

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