A chama sagrada de Héstia

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Chama consagrada a Héstia que mantenho em minha cozinha

Na antiguidade, o culto a Héstia era essencialmente feito por meio da manutenção de sua chama sagrada. No âmbito político, uma chama perpétua era mantida em um prédio público da pólis e todos os seus cidadãos comungavam dessa chama que era mantida em seus oikoi, isto é, em suas casas. Em grego antigo, oikos designa não somente a construção casa, mas a totalidade do seu sentido: seu caráter familiar, espiritual etc. Quando um novo oikos era fundado por meio do casamento, a chama da casa paterna era conduzida ao novo lar onde o sagrava.

O Hino Homérico XXIX enfatiza a centralidade do papel de Héstia à medida que diz:

Héstia, que nos paços sublimes do Deuses eternos
e do homens que pela terra caminha, recebeste em
partilha uma sede perpétua, penhor de primogênita,
e ora desfrutas a honra e o nobre privilégio; pois não há
banquetes entre os mortais, em que a ti, Héstia, não se libe
primeiro, no princípio e no fim, vinho doce como mel!

(vv.1-6; Tradução de Luiz Alberto Machado Cabral)

Pois bem, ao longo dos meus oito anos de Helenismo, nunca havia conseguido consagrar e manter uma chama perpétua em honra a Héstia: um pouco por falta de rotina e outro tanto pela facilidade que temos de conseguir fogo e fazer uma oração para consagrá-lo, eu acabava esquecendo de trocar a vela de sete dias e assim o fogo se extinguia.

Contudo, depois de passar um tempo hospedado com um casal de amigos do RJ que mantinha uma chama consagrada a Héstia e de vivenciar a energia que aquela chama instaurava na casa, resolvi que estava na hora de “assentar” Héstia também na minha casa. E foi isso que fiz: deixo uma vela de 7 dias protegida por um vidro na cozinha e uma lamparina de azeite no meu altar principal.

A manutenção dessas chamas tem sido maravilhosa!

Na cozinha, ver sempre a chama acesa me traz o sentimento de gratidão aos deuses pelo conforto de ter um lar, uma família e a oportunidade propiciada justamente pelo fogo de me alimentar e de comungar da vida com os meus phíloi (familiares, amigos etc).

No quarto, a chama me acalenta e já duas vezes me “protegeu” de pesadelos terroríficos: acordar assustado no meio da madrugada e ver aquele brilho me dá a plena certeza de que nada de mau pode estar me perturbando física e espiritualmente.

Além disso, a manutenção da chama supre o meu sentimento de dever devocional para com os deuses, explico: a ideia do Helenismo, diferente de outras religiões, pressupõe a vivência do sagrado para além do momento festival/ritual, ou seja, vivenciar a devoção e os próprios deuses caracteriza-se como uma experiência diária, não como algo restrito a um templo e a um calendário; sendo assim, a manutenção da chama fortalece esse lado que chamamos de ortoprático, o fazer corretamente, já que verter azeite para a chama caracteriza-se como uma libação e, para fazê-la, sempre acabamos entoando um hino ou uma prece.

Pois bem, além de relatar minha experiência pra vocês e também respondendo a pedidos, fiz um passo-a-passo explicando como fazer e manter uma lamparina de azeite.

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Meu altar dedicado a Afrodite, Ares e Poseidon com a lamparina de azeite que mantenho acesa em meio ao altar. (Noumenia, Setembro, 2017)

Para fazer a lamparina de azeite você vai precisar de:

  • 1 recipiente de vidro temperado (para que o calor da chama não o trinque ou quebre); é importante que o côncavo do vidro seja reto nas laterais, do contrário, se o vidro for arredondado, a boia de cortiça tende a ficar nos cantos do vidro e, assim, vai queimar e às vezes manchar o vidro, além de aquecê-lo demais;
  • 1 boia de cortiça (que você encontra em casas “de macumba”);
  • 1 vela palito (daquela tradicional);
  • 1 pinça;
  • 1 pegador;
  • Barbante a partir do nº8;
  • Azeite virgem ou extravirgem (outros tipos de azeite tem óleo refinado adicionado a mistura, daí não é tão puro para se oferecer).

Tendo juntado os materiais você vai:

1 – Colocar azeite no vidro;

2 – Cortar um pedaço de barbante de medida aproximada à da profundidade do vidro que você vai usar;

3 – Passar o barbante pela parte de baixo da boia de cortiça (a parte de baixo é que não fica com a proteção metálica que vem com ela) e puxar pelo outro lado, deixando não mais que três a cinco milímetros;

4 – Colocar a boia de cortiça sobre o azeite de modo que o restante do barbante seja submergido;

5 – Acender a chama e entoar um hino ou fazer uma prece para Héstia a fim de consagrá-la.

Para fazer a manutenção da chama, você vai:

1 – Acender a vela palito na chama consagrada da lamparina;

2 – Segurar, com o pegador, as bordas da boia de cortiça sem tirá-la do azeite (contudo, se você acabar tirando, não tem tanto problema se houver “refil” de barbante já molhado de azeite, porque daí esse barbante serve de combustível pra chama continuar queimando);

3 – Puxar pra cima, com a pinça, um pouco de barbante (é bem pouco, se não a chama fica enorme, pode soltar fuligem e ainda consumir mais azeite do que o necessário);

4 – Tirar, também com a pinça, as partes mais queimadas do barbante;

5 (ou 1A) – Verter a quantidade de azeite necessária para encher o vidro até um nível seguro e que não transborde (um dedo da borda geralmente é o suficiente); esse passo pode ser feito ao fim da limpeza do barbante ou antes dela, mas sempre depois de salvaguardar a chama na vela palito;

IMPORTANTE:

Caso o barbante apague durante a manutenção, pegue um palito de churrasco, molhe a pontinha no azeite e acenda ela na chama da vela palito; depois acenda o barbante de novo.

Tentar acender o barbante virando a vela acessa pode, além de apagar a chama mesmo, sujar o azeite e a boia de cortiça com parafina de vela.

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