A Afrodite de Karl Kerényi: Fim!

Para finalizarmos o ciclo de postagens a respeito de Afrodite e as relações que Kerényi estabelece entre ela e outras divindades, hoje veremos o que o helenista fala da relação entre o deus mensageiro e a nossa deusa. Nessa parte, vemos como Hermes e Afrodite se envolveram e deram nascimento a Hermafrodito e qual seu significado na antiguidade.

Hermes, Afrodite e Hermafrodito

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A Metamorfose de Hermafrodito e Sálmacis de Jan Grossaert (1520)

Ou a história dos primeiros feitos de Hermes, em certa ocasião, era contada por miúdo, ou era mais tarde ampliada com a história [Canções de Horácio] do modo como o ladrão de gado aproveitou sua oportunidade, enquanto o irado Apolo o ameaçava, para roubar-lhe também o carcás e as setas: diante disso, o irmão pôs-se a rir a bandeiras despregadas. Todos esses fatos aconteceram no “tempo pastoril” de Apolo, que ele passou na Tessália, onde seu irmão mais moço podia sentir-se tão à vontade quanto na Arcádia. As imagens religiosas erigidas em sua honra ou exibiam um estilo “cileniano”, em que a imagem era um falo de madeira ou de pedra, ou então um estilo parecido, em que a imagem era um pilar retangular com uma cabeça e um falo ereto – imagem que, em nossa língua, se denomina herma. Diz-se [Histórias de Heródoto; Calímaco] que essa imagem proveio dos Mistérios dos Cabiros – o que quer dizer, no norte da Grécia, onde se situa a Tessália. O lago Bebe, na Tessália, foi o cenário do amor de Hermes, que mencionei ao falar no nascimento de Asclépio. Contava-se [Sobre a natureza dos deuses de Cícero] que quando o deus avisou a deusa – às vezes chamada Perséfone, às vezes Brimo [Propércio] – seus impulsos naturais foram indecorosamente excitados. Naquela região, a mesma deusa deve ter sido igualmente considerada mãe do deus; pois às vezes se falam em Hermes [Sobre a natureza dos deuses de Cícero] como o fruto do caso de amor no lago Bebe. Quando se afirma também [Sobre a natureza dos deuses de Cícero] que Hermes houve Eros de Ártemis, é mais uma vez a mesma história. Temos sempre diante de nós a Grande Deusa, da qual Hermes – na forma das suas antigas imagens religiosas, ligada aos Dáctilos – era, a um tempo, marido e filho.

Numa história mais conhecida, a deusa tão proximamente associada a Hermes era Afrodite. Consideravam-se os dois irmão e irmã, visto serem ambos, num genealogia [Sobre a natureza dos deuses de Cícero], filhos de Urano, o céu noturno, e Hêmera, o brilho do dia. Hermes e Afrodite, com efeito, foram claramente gêmeos, pois tinham o mesmo dia de nascimento [Escólio ao Trabalhos e Dias de Hesíodo], o quarto dia do mês lunar. O filho deles foi Eros [Sobre a natureza dos deuses de Cícero]: ou então, na verdade, seria ele o outro ser de quem agora falarei. Este último, criança ainda, fora confiado por Afrodite às ninfas do monte Ida [Metamorfoses de Ovídio], que o criaram, até a virilidade, numa caverna. Nos traços do lindo menino podiam discernir-se, ao mesmo tempo, os do pai e os da mãe. Quando completou quinze anos, deixou o lar na montanha e percorreu, impetuoso, toda a Ásia Menor, admirando os rios, mananciais e fontes de cada região. Assim chegou à Cária, à fonte magnífica da ninfa Sálmacis. Esta não era companheira de Ártemis, jamais caçou, mas simplesmente lhe penteava os cabelos e admirava-se no espelho das águas. Quando viu o moço – cujo nome poderia ter sido igualmente Eros -, apaixonou-se por ele; mas não conseguiu seduzi-lo. Ele repeliu a ninfa, mas, como não podia resistir à água, mergulhou na fonte. Sálmacis abraçou o rapaz, e os deuses lhe satisfizeram o desejo: ela tornou-se uma com o filho de Hermes e Afrodite, o filho chamado Hermafrodito, que, desde então, passou a ser realmente um hermafrodita, um moço feminino – mas não como Átis, que perdeu completamente a virilidade.

Nessa versão, a história não é antiga. O leitor há de estar lembrado de que Amatunte, na ilha de Chipre, a própria Afrodite era adorada como Afrodito. Desse modo, naquele país, encontramos também, num único ser, a unidão do masculino e do feminino, também conseguida por Sálmacis: união que até nos dias de hoje encontra expressão em nossa língua, quando falamos de dua pessoas casadas como sendo um andogyno, um “homem-mulher”. O reverso dessa realização mútua nos é apresentado pela história de Narciso, trágica figura de menino, tão parecido com Jacinto que os dois eram amiúde confundidos um com o outro. Falava-se [Metamorfoses de Ovídio] do belo Narciso que, aos dezesseis anos de idade, viu, pela primeira vez, o seu reflexo numa das muitas fontes do Hélicon, na região dos tespienses na Beócia, região onde Eros era adorado especialmente. Narciso apaixonou-se pelo próprio reflexo e foi definhando, ou se matou [Fragmentos dos Historiadores Gregos]. Do seu corpo ergueu-se uma flor que ainda hoje se chama narciso, nome derivado da nossa antiga palavra narke, “estupor”.

Outra figura que poderia igualmente confundir-se com a de Jacinte e que, portanto, era também considerada [Biblioteca de Apolodoro] um menino amado por Apolo, foi Himeneu, assim chamado por causa do grito de “Hímen”, refrão melódico em nossos epitalâmios. A palavra significa a virgindade de uma rapariga – a sua “flor”, como é chamada metaforicamente [Fragmentos Órficos]. Havia uma história [Fragmentos de Píndaro; Escólio à Eneida de Virgílio] sobre o modo com que, em seu casamento, o belo jovem Himeneu morreu na câmara nupcial; e havia também uma história [Escólio à Eneida de Virgílio] segunda a qual ele usava roupas de mulher a fim de seguir a adorada donzela com quem se devia casar. Ele pode ser visto num mural de Pompéia, onde o pintaram como um segundo Hermafrodito. Essa qualidade do jovem deus parece referir-se à condição que levava ao casamento e terminava com o casamento, assim para moços como para moças: uma condição que liga Himeneu não só a Jacinto mas também a Adônis.

Referência:

KERÉNYI, KARL. Os Deuses Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997, pp.136-137.

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