A Afrodite de Karl Kerényi: Parte VII

Nessa penúltima parte dos posts a respeito de Afrodite, publico parte do capítulo de Kerényi dedicado a Reia-Cibele, a deusa frígia cujas características, mitos e atributos apresentam paralelos com Afrodite. Ressalvo, contudo, que não exponho aqui o capítulo integral acerca de Reia, mas apenas as partes em que há relação direta com Afrodite e seu duplo sexo conforme vimos no último post, isto é, o culto cipriota que concebia um Afrodito como par ou duplo masculino da deusa.

A Grande Mãe dos Deuses e seus Companheiros

T7.1Rhea

Reia cavalgando um leão, fragmento de vaso ateniense de figuras vermelhas (~ séc. V a.C.)

O título de Grande Mãe, ou Mãe dos deuses, ou ambos ao mesmo tempo, foi dado apenas a uma das filhas de Géia e Urano: a saber, a Réia, que dera a Crono os três deuses que governam o mundo, Zeus, Posídon e Hades, e as três deusas, Hera, Deméter e Héstia. Tal foi a origem de toda a geração mais nova dos deuses olímpicos, de modo que a deusa da qual todos descenderam podia perfeitamente ser chamada Grande Mãe dos Deuses. Um direito ainda maior a esse título, naturalmente, é o da Mãe Terra, Géia, que produziu até o Pai Urano dentro em si mesma. Com efeito, só na genealogia hesiódica se fez uma distinção tão acentuada entre Géia e Réia que a primeira se tornou mãe da segunda. As histórias a respeito de Réia pressupõem ter sido ela a Primeira Mãe e haver, ela mesma, produzido seus ajudadores e companheiros, extraindo-os da terra ou, em outras histórias, tendo sido fertilizada pelo deus do céu.

Admite-se que Réia não era mais a nossa Grande Mãe do que a grande deusa do amor era exclusivamente nossa. (Entre os vizinhos orientais, na Ásia Menor, na Síria e em regiões ainda mais a leste, nem sempre é fácil distingui-las uma da outra). Na Ásia Menor, sobretudo, Réia era adorada como Meter oreia, “Mãe-montanha”, para mencionar apenas um dos seus muitos nomes, quase sempre formados do nome de uma montanha e que indicavam uma relação com uma paisagem montanhosa – nomes como Berecíntia, Dindimena, Idaia. No território da Ásia Menor, a partir do qual seu culto se divulgou e, com efeito, voltou muitas vezes para nós, ela era chamada, na Frígia, Matar Kubile, o que em nossa língua é Cibele. Pode ser reconhecida na Senhora dos Animais, de Creta, que se apresenta, flanqueada por dois leões, no ápice de uma montanha. Sua conhecida figura entronizada, contudo, ela adquiriu, primeiro, como Mãe dos Deuses na Frígia. Costuma ostentar na cabeça uma coroa exuberante, semelhante a uma cidade, e brinca com um leão ou conduz um carro puxado por leões.

Sua procissão festiva incluía seres do sexo masculino, que a acompanhavam numa dança selvagem, extática, ao som estridente de “instrumentos das terras altas” – flautas, címbalos, tambores de mão, matracas e, nos tempos mais antigos, também placas vibrantes. Esses seres, no princípio, podem ter sido homens, mas imitavam espíritos de deuses, como os que, em nossa língua se denominam daimones, “demônios”. Na Frígia, os servos divinos da deusa chamavam-se Berecíntios. O seu nome mais popular era “Coribantes”. Mais adiante mencionarei os nomes dados a deuses semelhantes entre nós mesmos, nomes que são, praticamente, tudo o que sobreviveu das histórias da Grande Mãe. Os seus atendentes, na maior parte, eram identificados como os Coribantes, os quais, portanto, não representarão nenhum papel especial nas histórias que passarei a relatar.

A História de Átis

Não posso omitir a única história pormenorizada conhecida de um servo da Grande Mãe – ainda que não seja grega. A Mãe dos Deuses a que ela se refere é inteiramente frígia. Chama-se Agdístis, por causa da rocha chamada Agdo, perto de Pessinunte, cidade sagrada para ela. Seu amante Átis era ainda menos grego do que Adônis, amante de Afrodite. Em outros sentidos, os dois casais revelam certas semelhanças – sobretudo quanto temos em mente que em Amatunte a grande deusa do amor era igualmente hermafrodita. O hermafroditismo da Grande Mãe da Ásia Menor se reflete, entre nós, no fato de que, de um lado, ela se identificava com a nossa virgem caçadora, a deusa Ártemis, e era realmente conhecida como Megale Artemis, “a grande Ártemis”; e que, por outro lado, também podia ser pintada com muitos seios como uma Grande Mãe. Na versão em que a história frígia sobre ela nos foi contada, nossos deuses também desempenhavam um papel. Mas isso é, pura e simplesmente, uma questão de nomenclatura. Quando “Zeus” ocorre na história, o nome pode ser tomado como se significasse o deus do céu frígio, Papas.

A rocha de Agdo – assim reza a história [Pausânias; Aduersus Nationes de Arnóbio] – assumira a forma da Grande Mãe. Zeus adormeceu sobre ela. Enquanto ele dormia, ou enquanto lutava com a deusa, o seu sêmen caiu sobre a rocha. No décimo mês, a rocha Agdo pôs-se a mugir e deu à luz um ser selvagem, indomável, de sexo duplo e desejo duplo, chamado Agdístis. Com alegria cruel, Agdístis saqueava, matava e destruía o que lhe desse na telha, não dava importância nem a deuses nem a homens, e não achava nada maior na terra ou no céu do que ele mesmo. Os deuses discutiam entre si, muitas vezes, sobre a maneira de reprimir tanta insolência. Quando todos hesitavam, Dioniso tomou a peito a tarefa. Havia uma fonte em que Agdístis ia dessedentar-se quando acalorado pelos jogos ou pela caça. Dioniso mudou a água da fonte em vinho. Agdístis chegou correndo, impelido pela sede, bebeu avidamente o estranho líquido e caiu, por força, no sono mais profundo. Dioniso estava à espreita. Habilidoso, teceu uma corda com cabelos e, com ela, amarrou o membro masculino de Agdístis a uma árvore. Quando acordou da bebedeira, o monstro ergueu-se de um salto e castrou-se com a própria força. A terra bebeu o sangue que fluía e, com ela, as partes arrancadas. Destas surgiu incontinenti uma árvore frutífera: uma amendoeira ou – de acordo com outra história – uma romãnzeira. nana, a filha do rei ou deus-rio Sangário (Nana é outro nome para a grande deusa na Ásia Menor), viu a beleza do fruto, apanhou-o e escondeu-o no regaço. O fruto desvaneceu-se, e Nana concebeu um filho dele. O pai aprisionou-a, como mulher deflorada, e condenou-a a morrer à míngua. A Grande Mãe amamentou-a com frutos e com os alimentos dos deuses. Ela deu à luz um menininho. Sangário mandou que deixassem a criança fora, ao ar livre, para morrer. Um bode tomou conta dela e, quando a encontraram, ela foi alimentada com um líquido chamado “leite de bode”. Deram-lhe o nome de Átis, ou porque attis em lídio significasse bonito menino, ou porque attagus em frígio significasse bode.

Átis era um menino de maravilhosa beleza. A história prossegue dizendo que Agdístis se apaixonou por ele. A divindade selvagem saiu com o rapaz, já crescido, para caçar, levou-o para os ermos mais inacessíveis e deu-lhe despojos de caçada. Midas, rei de Pessinunte, tentou separar Áris de Agdístis e, com esse propósito, deu por esposa ao menino a própria filha. Agdístis compareceu ao casamento e ensandeceu os participantes com as notas de uma flauta-de-pã. Átis castrou-se debaixo de um pinheiro, gritando: “Para ti, Agdístis!”. E assim morreu. Do seu sangue brotaram as violetas. Arrependido, Agdístis suplicou a Zeus que devolvesse a vida a Átis. Tudo o que Zeus, de acordo com o Destino, pôde conceder foi determinar que o corpo de Átis nunca se corromperia, que seus cabelos continuariam a crescer para sempre e que seu dedo mindinho continuaria vivo e poderia mover-se à vontade.

Referência:

KERÉNYI, KARL. Os Deuses Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997, pp.74-75; 78-79.

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *