A Afrodite de Karl Kerényi: Parte VI

Chegando ao fim do capítulo dedicado por Karl Kerényi a Afrodite, veremos a apresentação que o helenista faz dos epítetos da deusa. Contudo, esse não será o fim das postagens de conteúdos apresentados pelo helenista. Como veremos ao fim da postagem de hoje, Kerényi nos remete a outras passagens de seu livro que, segundo ele, se relacionam à natureza de Afrodite.

Sobrenomes de Afrodite

S10.15Aphrodite (1)

Estátua romana de Vênus Calipígia (~225 a.C.)

Nossa mitologia perdeu um sem-número de histórias relativas às divindades que nos são mais conhecidas. A substância das histórias estava contida na figura da própria divindade, mas não havia um única história capaz de apresentar a figura toda em todos os seus aspectos. Os deuses viviam na alma dos nossos antepassados, e não entravam integralmente em nenhuma história. Sem embargo disso, cada história – agora como então – contém alguma parte viva deles, um contributo para a sua completação. As histórias, por sua vez, não podem ser inteiramente contidas numa só palavra, no nome ou num sobrenome da divindade em apreço. Entretanto, até certo ponto, estão compreendidas nesses nomes: assim, por exemplo, a história do nascimento de Afrodite se contém eu seu sobrenome de Anadiomene. Por essa razão, os sobrenomes preservados são necessários ao entendimento da mitologia. No caso de Afrodite, pelo menos, mais alguns dos seus nomes precisam ser mencionados, a fim de que todos os aspectos da grande deusa do amor sejam trazidos à luz.

Em nossa linguagem, a palavra aphrodite adquiriu o significado de “prazer do amor”. Nos antigos poetas, essa dádiva da deusa é acompanhada pelo adjetivo chruse, “áureo”, o que, porém, não deve ser entendido num sentido demasiado restrito, pois também expressa toda a atmosfera de Urânia, a “Celeste” oriental, que em Chipre trazia outrossim o sobrenome de Eleêmon, “a misericordiosa”. A atmosfera já se torna restrita quando encontramos as cortesãs de antanho adorando a deusa como uma delas, como Afrodite Hetaira ou Porne. Nessa atmosfera restrita, surgiram as obras de arte que retratavam a beleza da deusa como Kalligloutos ou Kallipygos, “a das belas nádegas”, com o vestido erguido alto à sua volta: isso ocorreu num tempo que nossos escultores, de um modo geral, tinham conseguido dissipar o temos respeitoso com que a nudez da deusa no banho outrora fora contemplada. Em Esparta, onde as mulheres gozavam de grande liberdade em assuntos de amor, Afrodite tinha o sobrenome de “Senhora”, que era também o nome da irmã-esposa de Zeus: chamavam-na de Afrodite Hera. Num santuário entre os espartanos ela era adorada debaixo de dois sobrenomes: ou portando armas, como Afrodite Enóplio; ou acorrentada, como Afrodite Morfo, “a de corpo bem-feito” ou “a de várias formas”, provavelmente outro nome para Eurínome, mãe das Graças, a qual, como relatarei dentro em pouco, era biforme e acorrentada. Em Esparta, Afrodite também se chamava Ambológera, “a que adia a velhice”. Em Atenas, tinha seus próprios jardins como Aphrodite en kepois e era adorada como Urânia e a mais velha das moiras. No cabo Colíaco, na costa ática, era também Genetílis, que é o mesmo que a Venus Genetrix dos latinos, deusa-padroeira do parto. Era a chefe de um grupo de três deusas e recebia, como Hécate, sacrifícios de cachorros. Uma bela pintura de vaso mostra-a cavalgando um cisne e, como Epitragídia, sentada num bode.

Outro aspecto de Afrodite, como o qual o bode deve ter tido alguma relção, expressa-se nos sobrenomes Melena e Melênis, “a negra”, e a Escócia, “a escura”. Na medida em que isso se refere à escuridão procurada pelo amor, esse aspecto está ligado ao outro já descrito. Mas a negra Afrodite pode igualmente ser associada às Erínias, entre as quais era também incluída. Sobrenomes como Andrófono, “Matadora de Homens”, Anósia, “a Pecadora”, e Timborico, “a Cavadora de Túmulos”, indicam suas sinistras e perigosas poetencialidades. Como Epitimbídia, é realmente “a que está sobre os túmulos”. Sob o nome de Persefessa invocam-na como rainha do Mundo Subterrâneo. Ela tem o título de Basílis, “rainha”. O sobrenome Pasifessa, “a que brilha longe”, associa-a também com a deusa da lua. Todas essas características são prova de que, em dado momento, algumas histórias identificavam a deusa do amor com a deusa da morte como um ser comparável à Venus Libitina dos romanos. A forma masculina do nome de Afrodite, Afrodito, induz-nos a pressupor outro grupo de narrativas. A deusa era adorada sob um nome semelhante em Amato, na ilha de Chipre, onde a retratavam como se tivesse barba. Trataremos daqui a pouco do sexo duplo da Mãe dos Deuses na Ásia Menor e, mais tarde, de Hermafrodito, figura que era produto essa característica da grande deusa do amor.

Referência:

KERÉNYI, KARL. Os Deuses Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997. pp.72-73.

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