A Afrodite de Karl Kerényi: Parte IV

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Pigmalião e Galatea de Ernest Normand (1886)

Nesse quarto post veremos os relatos de Karl Kerényi acerca de dois mitos muito interessantes dentre aqueles que integram o núcleo mitológico de Afrodite: o primeiro deles trata da história de Pigmalião, o homem que, apaixonado por uma estátua, pede à deusa por intervenção; o segundo fala da relação de Afrodite com um personagem um tanto apagado nas referências mais modernas e contemporâneas, isto é, Adônis, um outro amante da deusa cujas origens indicam ser próximo orientais.

A História de Pigmalião

Julgava-se em Chipre que Pigmalião fora rei e amante de Afrodite. Não sabemos como o seu nome era pronunciado entre os adoradores não-gregos da deusa, ou o que significava para eles: entre nós, também assumia a forma “Pigmeu”, que pode ter tido o mesmo significado de pygmaios, anão. (Nos tempos primitivos, outras ilhas do Mediterrâneo oriental, além de Chipre, de acordo com nossas antigas narrativas, eram habitadas por seres que podem ser descritos igualmente bem como anões ou grandes deuses. Entre eles figuravam os Cabiros da Samotrácia e os artífices Télquines de Rodes. Em Lemnos, Hefesto era outro tal qual).

Contou-se [Adversus Nationes de Arnóbio] que o rei Pigmalião se apaixonou pelo ídolo nu, de marfim, de Afrodite; pois uma imagem de culto desse tipo não era incomum entre os povos não-gregos antigos. Procurou tomar a estátua por esposa e deitou-a na sua cama. Está claro que isso é apenas um fragmento da história. Mas dizia-se [Metamorfoses de Ovídio] também que o próprio Pigmalião modelou em marfim a figura da bela mulher e apaixonou-se perdidamente por ela. No seu amor desesperado, rezou para Afrodite, e a deusa apiedou-se dele. A estátua ganhou vida, e Pigmalião desposou-a. Ela lhe deu Pafo, cujo filho, Cíniras, fundou a cidade de Pafo, onde se situa o santuário de Afrodite.

Segundo essa história, o culto da deusa do amor só começou com Pigmalião e sua criação do ídolo nu. Diz-se a respeito de Pigmalião [Hesíquio] que ele era, como Adônis, senhor e amado de Afrodite.

A História de Adônis

A história do senhor e amado da grande Deusa do Amor estava ligada – entre nós, e presumivelmente também nos países orientais, onde foi adotada, na Síria, em Chipre e na Ásia Menor – à história de uma árvore, aquele arbusto árabe cuja goma extremamente fragrante os povos da Antiguidade prezavam acima de todas as suas seivas solidificadas. À goma dava-se o nome de “mirra” ou “esmirna”.

A história continua [1] dizendo que Mirra (ou Esmirna) era filha de um rei; filha do rei Téia do Líbano, ou do rei Cíniras de Chipre, fundador de Pafo – ou, variamente, filha de outros reis que não preciso mencionar. Mirra apaixonou-se mortalmente pelo pai. (Várias razões foram aventadas para isso: a cólera do deus-sol, ou a cólera de Afrodite. Supõe-se que Mirra achava seus cabelos mais bonitos que os da deusa; e existem outras histórias semelhantes). A filha conseguiu enganar o pai, ou embebedá-lo – ocorrência também encontrada numa história bíblica. Dormiu com ele, como uma rapariga desconhecida, por doze noites, ou menos. Afinal, o pai descobriu, mercê de uma lâmpada escondida, quem era sua companheira de cama e saiu em perseguição dela com a espada desembainhada. Mirra já concebera um filho desse amor proibido e estava cheia de vergonha. Suplicou aos deuses que não a deixassem estar em parte nenhuma, nem entre os vivos nem entre os mortos. Alguma divindade, possivelmente Zeus e Afrodite, compadeceu-se e ela foi transformada na árvore que chora o seu fruto em goma picante, o fruto da madeira: Adônis. Pois ele, o futuro amante de Afrodite, nasceu da casca rachada da árvore de mirra.

Adônis era belo, tão belo que, logo que nasceu, Afrodite escondeu a criança numa arca e deu-a a Perséfone para guardá-lo seguro. A rainha do Mundo Subterrâneo abriu a arca, viu o menino e nunca mais quis devolvê-lo. A disputa entre as duas deusas foi levada à presença de Zeus. O rei dos deuses dividiu a posse de Adônis da seguinte maneira: durante uma terça parte do ano ele moraria sozinho; durante uma terça parte, com Perséfone; e durante um terça parte, com Afrodite. Sobre a morte de Adônis, que todos os anos o levava para Perséfone, no Mundo Subterrâneo, dizia-se comumente que ele fora ferido por um javali enquanto caçava. Correu-lhe o sangue, e o riacho Adônis, no Líbano, passou a fluir vermelho [A Deusa Síria de Luciano de Samósata]. Imagina-se que Ártemis ou Ares mandou o javali contra o mancebo [Escólio à Alexandra de Licófron]. Afrodite viu-se assim obrigada a prantear Adônis antes de poder realmente possuí-lo. Os festivais em que seu deplorável amor era celebrado foram realizados em comemoração ao dia em que a deusa do amor se separou do seu jovem senhor. Ele jazia ali mortalmente ferido, amado e pranteado por Afrodite [2]. Debalde tentou ela retê-lo. No dia seguinte, ele librou-se para longe no mar e no ar. Costumavam dizer, todavia, que ele ainda estava vivo. As mulheres lhe trouxeram pequenos “jardins” – expressão simbólica e pitoresca, comum em nossa língua, como em outras, para indicar-lhes a própria feminilidade. Nos santuários orientais, entregavam-se a estrangeiros. Que não fizesse teria, pelo menos, de sacrificar os cabelos a Adônis.

Notas:

[1] Argonáutica de Apolônio de Rodes, Biblioteca de Pseudo-Apolodoro, Metamorfoses de Ovídio, Fábulas de Hygino, escólios às Bucólicas de Teócrito e à Eneida de Virgílio.

[2] Bucólicas de Teócrito, A Deusa Síria de Luciano de Samósata e Bucólicas de Bíon.

Referência:

KERÉNYI, KARL. Os Deuses Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997. pp.69-70.

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