A Afrodite de Karl Kerényi: Parte III

Nessa terceira parte, veremos a narrativa de Kerényi acerca do triângulo amoroso entre Afrodite, seu marido Hefesto e seu amante Ares e os desdobramentos desses envolvimentos.

Afrodite, Ares e Hefesto

guillemot

Marte e Vênus surpreendidos por Vulcano de Alexandre Charler Guillemot (1827)

Havia histórias em que Afrodite tomou por marido o deus da guerra, Ares. Em outras, era esposa de Hefesto. Finalmente há uma história, que Homero tornou famosa, em que a deusa do amor engana o marido, Hefesto, com Ares. Sua união com o deus da guerra resultou, a crermos nos relatos dos tebanos [Teogonia], no nascimento da formosa Harmonia, “a que une”, uma segunda Afrodite. O nome de seu marido, Cadmo, o matador do dragão e fundador de Tebas, voltará a ocorrer na história de Europa. Outros filhos atribuídos a Ares e Afrodite foram, de um lado, Fobos e Deimo, o “Medo” e o “Terror” [Teogonia], e, por outro, Eros e Anteros, o “Amor” e a “Resposta ao Amor” [Sobre a Natureza dos Deuses de Cícero]. Tudo isso, contudo, é escassamente mitológico, pois pertence mais à genealogia. Consoante outra genealogia, o pai de Eros era Hefesto [Escólio à Eneida de Virgílio].

Terei muito que falar a propósito de Hefesto. Basta-nos dizer por ora que, de acordo com a maioria dos relatos, ele era um mestre matalúrgico vigoroso e hábil mas, ao mesmo tempo, um artífice anão e aleijado. Criou jovens virgens feitas de ouro [Ilíada], que se moviam como se estivessem vivas, e pensavam, falavam e trabalhavam. Afeiçoou a primeira mulher, Pandora [Teogonia], que não era sua esposa, mas esposa de seres muitíssimo parecidos com ele. A esposa de Hefesto – de acordo com Homero na Ilíada, e de acordo com Hesíodo – era a mais moça das Graças, Aglaia, “a gloriosa” [Teogonia]. Teriam querido as histórias mais antigas (que esses poetas conheciam) significar que ela também era uma obra de arte viva? Pode ser que sim, pois charis (“graça”) também equivale a tudo o que há de delicioso na arte. Ou seria a intenção delas dar ao deus-ferreiro por esposa uma Afrodite menor, em lugar da grande? Em todo caso, na nossa língua a deusa do amor também poderia ter-se chamado Charis. Na Odisséia, a esposa de Hefesto era Afrodite, e Ares, seu amante.

Um cantos do povo dos feácios [Odisseia], que estavam ainda mais próximos dos deuses do que nós, cantava o modo como Afrodite e o deus da guerra se apaixonaram um pelo outro. Aconteceu no palácio do marido. Ninguém sabia disso, e Ares se superara para poder violar o casamento de Hefesto. O Sol viu-os no ato do amor e, imediatamente, informou o famoso ferreiro. Este último, profundamente magoado com a notícia, entrou na ferraria e pôs-se a meditar pensamentos trevosos. Arrumou a grande bigorna e construiu correntes que não poderiam ser quebradas nem desatadas, mas que eram invisíveis e delicadas como teias de aranha. Pendurou-as nas colunas da armação da cama e partiu ou, pelo menos, fingiu partir para Lemnos, a ilha muito amada com sua cidade belamente edificada. Era essa a oportunidade que Ares estivera esperando. Abrasado de desejo pela famosa Afrodite, entrou no palácio do ferreiro. Ela acabava de voltar de uma visita que fizera a Zeus, seu pai, e estava sentada no interior da casa. Ares entrou, empolgou-lhe a mão e bradou: “Vem, amada, vamos deitar-nos e fruir do nosso amor” Hefesto está longe, foi para Lemnos, para o seu povo da língua estrangeira, os cíntios!”. Ela também ansiava por deitar-se com ele. Os dois, portanto, foram para a cama e depois adormeceram. As correntes engenhosamente fabricadas por Hefesto fecharam-se sobre eles, de modo que não podiam mover um membro sequer, e muito menos ficar de pé. Conheceram então que tinham caído numa armadilha.

Entrou o robusto ferreiro – pois o Sol ainda estava vigiando e traíra os amantes. À porta sobresteve, louco de raiva, e gritou com voz terrível para todos os deuses: “Pai Zeus e todos os mais, benditos e eternos deuses! Vinde e vede a irrisão e a vergonha que temos aqui! Vede como Afrodite, filha de Zeus, continuamente me envergonha, porque sou um aleijado! Ela ama o sinistro Ares, porque ele é loiro e seus pés são iguais um ao outro, ao passo que eu ando manquitolando. Entretanto, só meus pais merecem censura por isso: eles nunca deveriam ter-me gerado! Mas vede como os dois dormem ali, bêbados de amor, na minha cama! Ofendem-me a vista. Creio que jazerão ali por muito tempo ainda, pois se amam tão extremosamente – e, todavia, não terão nenhum desejo de continuar deitados: minhas correntes os manterão fixos, até que o pai decida devolver-me os presentes que lhe dei pela ordinária sem-vergonha! Pois sua filha é bela, mas não é casta!”.

Assim falou ele, e os deuses se reuniram em seu palácio, na casa de limiar de bronze. Entraram Posídon, Hermes e Apolo. As deusas ficaram recatadamente em casa. Aproximaram-se da porta, e uma gargalhada irreprimível apoderou-se dos abençoados ao perceberem o artifício do astuto Hefesto. E disseram uns aos outros: “Bem algum advém de um ato injusto. O lerdo alcança o ligeiro. O surpreendido em adultério tem de expiar o seu malfeito!”. Apolo perguntou a Hermes: “Gostarias de estar deitado com essas correntes ao lado da deusa Afrodite?”. E Hermes respondeu: “Se eu pudesse, deixar-me-ia de bom grado acorrentar com correntes três vezes mais fortes! E todos vós, deuses e deusas, poderiam vir e olhar para mim – tão alegremente me deitaria eu ao lado da áurea Afrodite”. Riram-se os imortais, exceto Posídon. Ele suplicou ao ferreiro que libertasse Ares e afiançou, em nome de todos os deuses, que uma reparação apropriada lhe seria feita. De má vontade, Hefesto consentiu e desacorrentou o par. Os dois puseram-se em fuga: Ares fugiu para a terra dos trácios, Afrodite para Chipre, para o seu templo em Pafo, onde foi recebida com agrado pelas Graças, que a banharam. Untaram a deusa com o óleo imortal cuja fragrância sempre adere aos deuses, e voltaram a envolvê-la em vestidos maravilhosamente belos e deliciosos.

Referência:

KERÉNYI, KARL. Os Deuses Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997. pp.67-69.

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