A Afrodite de Karl Kerényi: Parte II

Nesse segundo post da continuação do capítulo de Karl Kerényi dedicado a Afrodite, veremos como ele relata o seu nascimento e sua relação com Nérites, primeiro amante da deusa.

O Nascimento de Afrodite

botticelli

O Nascimento de Vênus de Botticelli (1480)

A história do nascimento de Afrodite, preservada em Hesíodo, forma a continuação da história de Urano, Géia e Crono. Começa com a primeira viagem da deusa à ilha de Chipre, sede dos seus mais antigos e poderosos santuários, os de Pafo e Amato. A história foi desenvolvida num hino que se atribuiu a Homero. Mas eu contarei a história original [Teogonia].

A virilidade extirpada do Pai Urano caiu no mar inquieto, em que Crono a atirara desde a terra firme. Durante muito tempo ela vagou de um lado para outro. Uma espuma branca – aphros – juntou-se-lhe à roda, formada da pele imortal. Uma donzela surgiu e cresceu dentro dela. Depois nadou primeiro para a ilha de Citera e, em seguida, para Chipre. Aqui a bela e tímida deusa se ergueu da água, e uma relva nova começou a crescer-lhe debaixo dos pés. É chamada Afrodite por deuses e homens, porque foi feita de espuma. E é também chamada de Citeréia, porque foi para Citera que primeiro nadou. Eros e Hímero (“Desejo”, o duplo do deus do amor) puseram-se a acompanhá-la logo que nasceu e se tornou deusa. Desde o princípio foram-lhe outorgados cargo e ofício, assim entre os deuses como entre os homens, relacionados com o sussuro das donzelas, o riso e as mistificações, o suave prazer, o amor e a bondade carinhosa.

O hino homérico conta mais [Hino Homérico VI a Afrodite] o modo com que, em Chipre, Afrodite foi recebida e vestida pelas Horas. As Horas são filhas de Têmis, a deusa da lei e da ordem apropriadas às relações naturais dos sexos. A contemplação da completa nudez da deusa teria sido contrária a Têmis – ou tal era a idéia dos nosso maiores nos tempos antigos, excetuando-se os dórios. Só depois de vestida, engrinaldada e adornada, pôde Afrodite ser levada para o meio dos deuses. Assim que a viram, todos a beijaram, agarraram-lhe a mão com firmeza e procuraram recebê-la por mulher num casamento permanente. Contarei daqui a pouco as histórias do seu casamento, mas rematarei esta parte da narrativa mencionando um relato segundo o qual Afrodite, nascida de um caramujo, desembarcou de uma concha na ilha de Citera [Sobre o Significado das Palavras de Festo]. Na cidade de Cnido, na costa da Ásia Menor, considerava-se o caramujo uma criatura sagrada para a deusa do amor. Foi nessa cidade que homens de pura raça grega, e não orientais, ousaram instalar uma Afrodite nua: a famosa estátua esculpida por Praxíteles.

Afrodite e Nérites

O caso de amor que se atribui a Afrodite quando ainda se achava no mar, antes de ser conduzida ao meio dos deuses do Olimpo, relaciona-se com um caramujo. O narrador, pertencente a um período ulterior, chama Afrodite de filha de Zeus. Mas até essa história indica que os dias pré-olímpicos da deusa se passaram no mar.

Conta-se [Sobre a Natureza dos Animais de Eliano] que existe ali um caramujo, pequeno porém de maravilhosa beleza, que vive na água mais pura, nos recifes debaixo da superfície do mar. Seu nome é Nérites, que anteriormente fora o único filho de Nereu. (Hesíodo só conhece as cinquenta filhas, e Homero não conhece mais do que elas. A história do filho de Nereu foi contada pelo povo da costa marítima). Nérites era o mais belo dentre homens e deuses. Enquanto viveu no mar, Afrodite só encontrava prazer nele, e vivia com ele como se fosse seu amante. Chegou, porém, o momento, como estava destinado, em que ela seria admirada entre os olimpianos, e o Pai a chamou. Ela quis levar consigo o camarada e companheiro de folguedos para o Olimpo. Mas ele preferiu viver no mar com as irmãs e os pais. Ela queria dar-lhe asas, mas ele tampouco tinha o desejo de voar. Por isso a deusa mudou-o em caramujo e levou como companheiro e criado o jovem deus do amor, Eros; a quem, além disso, acabou dando as asas.

Outra história apresentava Nérites como queridinho de Posídon e duplo de Faetonte. Quando o lindo menino conduzia o seu carro por sobre as ondas, Hélio ficou zangado. Mas está é uma história surgida depois da que acabei de contar.

Referência:

KERÉNYI, KARL. Os Deuses Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997. pp.65-66.

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