A Afrodite de Karl Kerényi: Parte I

capaLivroAo longo das próximas semanas, compartilharei com vocês o que diz Karl Kerenyi a respeito de Afrodite em seu livro Os Deuses Gregos, publicado em português originalmente pela editora Pensamento-Cultrix, e agora reeditado pela editora Vozes sob o nome de A Mitologia dos Gregos – Vol. 1: As Histórias dos Deuses e dos Homens.

Karl Kerényi foi um notório estudioso da religião grega e, junto a Walter Friederich Otto (cujo texto postarei em outra ocasião), ganhou visibilidade graças à sua excentricidade. Sua abordagem alinha-se a de Otto que, segundo Walter Burkert (renomado estudioso da história da religião grega e autor do essencial Greek Religion  ou Religião Grega na Época Arcaica e Clássica) desafia dois mil e quinhentos anos de crítica histórica e dá aos deuses uma notável atualidade, e nesse sentido entende os deuses como algo extremamente significativo. Posteriormente, a abordagem de Kerényi vai afinar-se com as ideias de Jung e sua análise passa a ser permeada pela noção dos arquétipos.

Sem mais delongas, passo ao texto dele, que dividirei em alguns posts, por questões de comodidade de leitura, conforme a divisão apresentada pelo próprio livro.

Faço uma única edição ao texto que é inserir entre chaves, ao invés de em notas de rodapé, o nome das referências antigas às quais o livro faz referência em alguns casos, por exemplo, [Escólio* a Germânico-Arato], o primeiro a ser citado.

*Escólio: Anotação feita às margens do papiro de determinada obra por um bibliotecário ou detentor do papiro que nos chegou desta obra.

A Grande Deusa do Amor

A nossa Grande Deusa do Amor nunca foi somente nossa. É a mesma divindade que nossos vizinhos orientais adoravam sob os nomes bárbaros de Istar ou Astarote, que mais tarde reproduzimos como Astarte. No Oriente, era uma deusa que fazia exigências amorosas peculiarmente fortes, mas era também assaz generosa com os prazeres do amor. Nos céus, a estrela da manhã e da tarde – o planeta Vênus – lhe pertencia; e entre as criaturas terrenas sua propriedade especial era a pomba. As histórias que se contam dela não são iguais às nossas histórias, mas no-las recordam. Aqui está uma delas [Escólio a Aratea de Germânico]:

Os peixes do rio Eufrates encontraram um Ovo grande, maravilhoso. Empurraram-no para a praia, uma pomba quebrou-o, e assim nasceu a deusa da qual se diz que é a mais bondosa e misericordiosa para a humanidade. A história oriental do jovem amante da deusa, Tamuz (ou, como lhe chamamos, Adônis, usando a forma vocativa do seu nome, Adoni, “Meu Senhor”, por assim dizer), era a história original que lhe dizia respeito. Nela, a deusa pode talvez ter-lhe causado a morte, mas apenas por excesso de amor.

Para nós a história correspondente ligava-se a Afrodite, cujo nome ainda nos lembra vagamente o nome “Astarote”. Nesse relato, que logo exporei, Afrodite ainda está fora das fileiras das divindades olimpianas, e continuou assim, di-lo a história, mesmo depois de ter sido recebida entre elas. Uma razão por que permaneceu alheia ao Olimpo foi sua grande esfera de domínio em outros lugares: como, pela mesma razão, permaneceu Hécate, a quem ela se assemelha muito quando é encontrada, sob o nome de Afrodite Zeríntia, na costa trácia, ou de Genetílis, na costa ática, recebendo sacrifícios de cachorros. Os atenienses consideravam-na “a mais velha das Moiras” [Pausânias]. Em outros lugares, também era tida por semelhante às Moiras e às Erínias, pelo fato de ser, como elas, filha de Crono [Escólio a Licófron]. Por outro lado, a história de ter sido gerada diretamente de Urano, ligava a nossa grande deusa do amor, para sempre, ao mar. Entre nós, era Anadiomene, a deusa que “emerge” das ondas salgadas; e ainda se lhe acrescentava o nome de Pelágia, “a do mar”.

Dois outros sobrenomes seus proporcionavam uma oportunidade a certas pessoas em Atenas, que preferiam o amor de meninos e cujas opiniões eram expressas por Platão, a oportunidade de distinguir entre uma Afrodite Pandemo, como “amor comum”, e uma Afrodite Urânia, como “amor celestial”. A verdade é que o nome Pandemo expressa a presença da deusa entre todas as fileiras e condições do povo, cujos membros liga uns aos outros em paz e amizade; e o nome de Urânia é prova da sua origem de deusa do céu oriental, em honra da qual os adoradores – como em Corinto, por exemplo – faziam peregrinações ao santuário no cimo de uma montanha, onde eram recebidos de maneira amistosa pelas servas do templo [Píndaro]. Os dois sobrenomes parecem estar associados a um terceiro, formando assim uma trindade: como no culto antiquíssimo de Tebas, onde a deusa tinha uma terceira forma como Apostrófia, “a que se afasta”.

Demais disso, Afrodite não era o único nome principal da deusa do amor. Ela era chamada também pelo nome grego de Dione, forma feminina de Zeus, que, em sua formação, lembra o nome latino Diana e significa “deusa do céu brilhante”. Dione era também reconhecida como deusa da água. Em Dodona, era adorada junto com Zeus na qualidade de deus das fontes, sendo considerada esposa do deus supremo e deusa das fontes e proferidora de oráculos. Hesíodo incluiu-a entre as Oceânidas [Teogonia] e, de acordo com os seguidores de Orfeu, ela era filha de Urano [Fragmentos Órficos]. A inauguração do oráculo de Dodona foi atribuída a uma pomba [Heródoto]. Os que a procuraram fazer a grande deusa Afrodite inteiramente subordinada a Zeus, como Homero, declaravam-na filha do olimpiano e de Dione [Ilíada].

Correndo paralelamente à história que faz de Afrodite uma filha de Zeus e Dione, a história segundo a qual ela foi diretamente gerada por Urano continuou a encontrar aceitação. Com essa versão darei início às histórias da Grande Deusa do Amor.

Referência:

KERÉNYI, KARL. Os Deuses Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997. pp.64-65.

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