O Nascimento de Afrodite na “Teogonia” de Hesíodo

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O Nascimento de Vênus
de William-Adolphe Bouguereau (1879)

Os versos abaixo apresentam a versão hesiódica do nascimento de Afrodite: castrado por Cronos, o pênis de Urano cai no mar e do sêmem despejado no mar nasce Afrodite.

Esses versos pertencem à Teogonia, poema de Hesíodo, poeta Beócio que teria vivido e composto suas obras entre os séculos VIII e VII a.E.C. A Teogonia trata-se de um poema épico (composto em hexâmetros datílicos, que caracterizam-se por seis repetições de uma sequência de uma sílaba longa e duas sílabas breves) de caráter genealógico (já que narra o nascimento e a geração, nesse caso, a dos deuses) e catalógico (por fazê-lo em forma de um catálogo, subgênero marcado pela brevidade das informações apresentadas).

Junto à Teogonia, supõe-se uma continuação que se dá no chamado Catálogo das Mulheres (obra ainda não disponível em português), onde, depois de ter narrado a geração dos deuses e seus respectivos envolvimentos entre si, Hesíodo narra o enlace de deuses e deusas com a raça dos heróis (uma das cinco raças, anterior à nossa, elencadas pelo poeta no poema Os Trabalhos e Os Dias).

A tradução que apresento aqui hoje é a de Christian Werner, publicada em 2013 pela editora Hedra. Em outro momento, publicarei também a de Jaa Torrano (Ed. Iluminuras, 1991) e, em um outro, uma tradução de minha própria autoria.

O Nascimento de Afrodite (Theog. 154-210)

Tradução: Christian Werner

Pois tantos quantos de Terra e Céu nasceram,
[155] os mais feros dos filhos, por seu pai foram odiados
desde o princípio: assim que nascesse um deles,
a todos ocultava, não os deixava para a luz subir,
no recesso de Terra, e com o feito vil regozijava-se
Céu. Ela dentro gemia, a portentosa Terra,
[160] constrita, e planejou ardiloso, nocivo estratagema.
De pronto criou a espécie do cinzento adamanto,
fabricou grande foice e mostrou-a aos caros filhos.

Atiçando-os, disse, agastada no caro coração:
“Filhos meus e de pai iníquo, caso quiserdes,
[165] obedecei: vingar-nos-íamos da vil ofensa do pai
vosso, o primeiro a armar feitos ultrajantes”.

Assim falou; e o medo pegou a todos, e nenhum deles
falou. Com audácia, o grande Crono curva-astúcia
de pronto com um discurso respondeu à mãe dedicada:
[170] “Mãe, isso sob promessa eu cumpriria,
o feito, pois desconsidero o inominável pai
nosso, o primeiro a armar feitos ultrajantes”.

Assim falou; muito alegrou-se no juízo a portentosa Terra.
Escondeu-o numa tocaia, colocou em suas mãos
[175] a foice serridêntea e instruiu-o em todo o ardil.
Veio, trazendo a noite, o grande Céu, e em torno de Terra
estendeu-se, desejoso de amor, e estirou-se em toda
direção. O outro, o filho, da tocaia a mão esticou,
a esquerda, e com a direita pegou a foice portentosa,
[180] grande, serridêntea, os genitais do caro pai
com avidez ceifou e lançou para trás, que fossem
embora. Mas, ao escapar da mão, não ficaram sem efeito:
tantas gotas de sangue quantas escapuliram,
Terra a todas recebeu. Após os anos volverem-se,
[185] gerou as Erínias brutais e os grandes Gigantes,
luzidios em armas, com longas lanças nas mãos,
e as Ninfas que chamam Mélias na terra sem fim.
Os genitais, quando primeiro os cortou com adamanto,
lançou-os para baixo, da costa ao mar mui encapelado,
[190] levou-os o pélago muito tempo, e em volta, branca
espuma lançou-se da carne imortal; e nela moça
foi criada. Primeiro da numinosa Citera achegou-se,
e então de lá atingiu o oceânico Chipre.
E saiu a respeitada, bela deusa, e grama em volta
[195] crescia sob os pés esbeltos; a ela Afrodite
espumogênita e Citereia bela-coroa
chamam os deuses e varões, porque na espuma
foi criada; Citereia, pois alcançou Citera;
cipriogênita, pois nasceu em Chipre cercado-de-mar;
[200] e ama-sorriso, pois da genitália surgiu.
Eros acompanhou-a e Desejo a seguiu, belo
quando ela nasceu e dirigiu-se à tribo dos deuses.
Esta honra desde o início tem e granjeou
quinhão entre os homens e deuses imortais,
[205] palavreado de meninas, sorrisos e farsas,
delicioso prazer, amor e afeto.

Aqueles o pai chamava, por apelido, Titãs,
o grande Céu brigando com filhos que ele mesmo gerou;
dizia que, iníquos, se esticaram para efetuar enorme
[210] feito, pelo qual, depois no futuro, vingança haveria.

Referência:

WERNER, C. Hesíodo – Teogonia. São Paulo: Hedra, 2013. pp.41-45.

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