Afrodite segundo P. Grimal

Pra começar…

 

Hoje vou postar o verbete de Afrodite do Dicionário da Mitologia Grega e Romana do Pierre Grimal, helenista francês cujas incursões nos estudos de Grécia e Roma reverberam até hoje:

AFRODITE. (Ὰφροδίτη.) Afrodite é a deusa do Amor, identificada em Roma com a velha divindade itálica Vénus. Duas diferentes tradições se referem ao seu nascimento. Ora fazem dela a filha de Zeus e de Díone […], ora uma filha de Úrano, cujos órgãos sexuais, cortados por Crono, caíram no mar e geraram a deusa, <<a Mulher-nascida-das-ondas>>, ou então <<nascida da esperma do Deus>>. Logo que emergiu do mar, Afrodite foi transportada pelos Zéfiros, primeiro para a ilha de Citera, depois até à costa do Chipre. Aí, foi acolhida pelas Estações (as Horas), vestida e enfeitada, e conduzida por elas para junto dos Imortais. Uma lenda referida por Luciano dá a entender que ela terá sido, primeiro, criada por Nereu […]. Mais tarde, Platão imaginou a existência de duas Afrodites diferentes: a que nasceu de Úrano (o Céu), a Afrodite Urânia, deusa do amor puro, e a filha de Díone, a Afrodite Pandémia (ou seja, a Afrodite Popular), deusa do amor vulgar. Mas esta é uma interpretação filosófica tardia, estranha aos mitos mais antigos da deusa. À volta de Afrodite formaram-se diferentes lendas que não constituem uma história coerente, mas episódios diversos em que intervém a deusa. Afrodite era a mulher de Hefesto, o deus coxo de Lemnos. Contudo, amava Ares, o deus da Guerra. Homero refere como os dois amantes foram surpreendidos, uma manhã, pelo Sol, que logo foi dar a novidade a Hefesto. Este preparou, em segredo, uma armadilha: tratava-se duma rede mágica que só ele podia manejar. Um dia em que os dois amantes estavam abraçados no leito de Afrodite, Hefesto fechou-os na rede e chamou todos os deuses do Olimpo, o que provocou neles a mais viva hilaridade. A pedido de Posídon, Hefesto consentiu em retirar a rede. A deusa partiu, envergonhada, para Chipre e Ares para a Trácia. Dos amores de Ares e Afrodite nasceram Eros e Ânteros, Deimo e Fobo (o Terror e o Medo), a Harmonia (que mais tarde, em Tebas, se tornou a mulher de Cadmo). Por vezes, acrescenta-se ainda a esta lista Priapo, o deus de Lâmpsaco, protector dos jardins (segundo algumas tradições, Afrodite é considerada como a deusa dos jardins, mas isso acontece sobretudo na sua encarnação itálica, Vénus).

Os amores de Afrodite não foram apenas com Ares. Quando Mirra, transformada em árvore, deu à luz Adónis […], Afrodite recolheu a criança, que era muito bela, e confiou-o a Perséfone. Esta, porém, não a quis depois entregar. A questão foi submetida a Zeus, que decidiu que o jovem deveria permanecer uma terça parte do ano com Perséfone, outra terça parte com Afrodite e o restante tempo com quem preferisse. Mas Adónis permanecia uma terça parte com Perséfone e as duas terças partes como Afrodite. Adónis haveria de morrer muito cedo, ferido mortalmente por um javali, talvez vítima da inveja de Ares.

A deusa amou igualmente Anquises, no cimo do Ida, na Tróade, e dele teve dois filhos, Eneias e, segundo certas tradições, Lirno […].

Eram célebres as cóleras e as maldições de Afrodite. Foi ela quem inspirou a Eos uma paixão irresistível por Oríon, como castigo por ter cedido a Ares. Castigou igualmente todas as mulheres de Lemnos por não a honrarem, atormentando-as com um odor de tal modo insuportável que os maridos as trocavam pelas cativas trácias. As Lémnias mataram então todos os homens da ilha, e fundaram uma sociedade de mulheres até ao dia em que os Argonautas apareceram e lhes deram filhos […]. Afrodite castigou ainda as filhas de Cíniras, em Pafos, forçando-as a prostituírem-se com estrangeiros […].

O seu favor não era menos perigoso. Uma dia, a Discórdia lançou uma maçã que deveria ser entregue à mais bela das três deusas, Hera, Atena e Afrodite. Zeus ordenou a Hermes que as conduzisse, às três, ao monte Ida, na Tróade, para aí serem apreciadas por Alexandre, mais tarde conhecido pelo nome de Páris. As deuses iniciaram perante ele um debate, elogiando cada uma a sua beleza e prometendo-lhe presentes. Hera oferecia-lhe a realeza sobre todos os povos; Atena tornava-o invencível na guerra e Afrodite concedia-lhe a mão de Helena. Afrodite foi a preferida e foi ela, pois, que esteve na origem da Guerra de Tróia […]. Durante toda a guerra, ela protegeu os Troianos e, sobretudo, Páris. Quando este combateu, num combate singular, contra Menelau e esteve em vias de ser derrotado, foi Afrodite quem o livrou do perigo e provocou o incidente que fez recomeçar as hostilidades gerais. Mais tarde, protegeu igualmente Eneias quando este ia ser morto por Diomedes, que chegou mesmo a ferir a deusa. Mas a protecção de Afrodite não pôde impedir a queda de Tróia e a morte de Páris. Apesar disso, conseguiu salvar a raça troiana e foi graças a ela que Eneias, com Aquises, seu pai, e Iulo (ou Ascânio), seu filho, levando consigo os Penates de Tróia, conseguiu escapar-se da cidade em chamas e procurar uma terra que fosse a sua nova pátria […]. Por isso, Roma via uma protectora especial em Afrodite-Vénus. Esta era considerada a antepassada dos Iulii, os descendentes de Iulo e, portanto, de Eneias, filho da deusa. Por tal motivo, César construiu-lhe um templo, dedicado à Vénus-Mãe, a Venus Genetrix.

Os animais favoritos da deusa eram as pombas. Era um casal destes animais que puxava o seu carro. As suas plantas eram a rosa e o mirto.”

Referência:

GRIMAL,P. Dicionário de Mitologia Grega e Romana. 7ª ed. Trad. Victor Jabouille. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014 (1912). pp.10-11

Os texto reproduzido acima não foi alterado em relação à forma como foi publicado no referido livro, por conta disso é que permaneceram alguns erros ortográficos e acentuais, que optei por manter.

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